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“A dança africana é a mãe de todas as danças”


Quem a vê dançar sente. Quem a vê dançar persegue atentamente todos os seus movimentos. Quem a vê dançar entranha aquele ritmo no corpo. Quem a vê dançar transpira por cada poro da pele o mesmo suor. Quem a vê dançar é contagiado. Quem a vê dançar quer dançar. Eu vi, eu quis! Experimentei e senti a essência da África Ocidental em mim. Obrigada Joana, por me fazeres “sentir pés que massajam a terra, sentir um corpo que tem história e raiz, sentir braços capazes de abraçar o mais longínquo céu, sentir que somos seres comunitários e sociais e que, quando somos muitos, ficamos ainda mais fortes”. Esta entrevista relata a história de Joana Peres, responsável pela direção artística e coreográfica da Allatantou dance company.



A Allatantou dance company acaba de festejar sete anos de existência. Podes contar-me a história do projeto?
A Allatantou dance company é uma escola/companhia internacional que nasceu na costa oeste africana na década de ‘70, fundada pelo nosso mestre Abdoulaye Camara. Viajou até à Europa e EUA nos anos ‘80 e foi, assim, ganhando raízes um pouco por todo o mundo. A Allatantou Portugal formou-se em 2006 e foi fruto de um encontro no Reino Unido. Durante o tempo que lá residimos, conhecemos numa formação aquele que veio ser o nosso grande guia e mentor nesta viagem pelos meandros da cultura da costa oeste africana. Houve de imediato uma enorme empatia! Desde esse encontro, as nossas vidas nunca mais foram as mesmas… sem saber, tinha um bebé nas mãos: a Allatantou. Esta companhia de dança procura unir as vertentes de formação e de espetáculo, o lado artístico e o lado social, tudo isto em volta de uma herança cultural ancestral, proveniente dos países da costa oeste africana, cuja sabedoria humana, cultural e artística tem que ser difundida, para bem de todos.

Podes falar de todo o teu percurso desde que integraste a Allatantou?
O balanço que faço destes sete anos na direção artística e coreográfica da Allatantou é bastante positivo. Desde essa data já organizámos, só em Portugal, quase duas dezenas de workshops de dança e percussão com mestres bailarinos e músicos africanos. Estabelecemos a Allatantou em mais três pontos, ou seja, para além da cidade do Porto, estamos também em Lisboa, Faro e Galiza. Mais, realizei ainda outro sonho: uma criação em parceria com artistas africanos, em África. “M’WAMA BIRIN KHAFA” foi um espetáculo que nasceu em novembro de 2012 na Guiné Conacry, uma co-produção com uma companhia local, o “BALLETS DE MATAM” foi apresentada publicamente duas vezes na capital guineense, uma vez em dezembro e outra em março de 2013. Foi um projeto merecedor de Bolsa de Criação Artística - Dança da Fundação Calouste Gulbenkian, uma criação que contou com a participação de mais de 60 artistas guineenses, entre bailarinos e músicos. Depois deste projeto, regressei a Guiné para a criação e apresentação de um dueto com o bailarino/coreógrafo guineense Mohamed Dabo, acompanhado musicalmente pelo grupo Tambours de Guinée, no âmbito do 1º Festival Internacional Diaspora Matam. Para finalizar este ano cheio de intercâmbios, temos em Portugal o diretor musical da Allatantou Guinée, não só a propósito das comemorações do nosso sétimo aniversário, mas também para espetáculos e formações que temos em agenda.

E a tua história antes da Allatantou, qual é?
A minha história tem sido um caminho, composto por imensos atalhos e desvios. Desde criança que manifestava que a arte era a minha forma de comunicar. Sempre fui uma apaixonada pela pintura, poesia, dança, cenografia… e, assim, me formei em Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Porém, creio que as artes não chegavam para completar um outro lado, que também era muito forte em mim, o da “fisicalidade” do corpo. Aos três anos, iniciei a ginástica rítmica e, desde aí, nunca parei de fazer desporto, sendo que a dança contemporânea e as danças urbanas foram descobertas preciosas. Porém, a ponte para as danças africanas foi, sem dúvida, a Capoeira. Não só porque despertou o interesse em ir conhecer o que estava por detrás da História, das músicas e do movimento, mas também porque foi na Capoeira que conheci o João Russo, meu companheiro de vida, co-fundador da Allatantou e o músico que me acompanha sempre!

Surgiu assim a tua ligação à dança africana?
Sim, depois da Capoeira, passei a investigar as danças africanas. Contudo, tal era a diversidade que cedo percebi que tinha que focar-me numa região, ou grupo étnico, até porque nem todos os estilos me agradavam. Em Portugal, o meu primeiro professor foi Marc N´danou, um bailarino togolês, que recordo a cada momento com imenso carinho! A partir dai, até conhecer Abdoulaye Camara, surgiram imensas formações com bailarinos vindos dos vários cantos de África. Ao mesmo tempo que toda esta informação me inspirava na minha própria descoberta do movimento africano, em 2005, depois da minha primeira formação com Abdoulaye Camara em Inglaterra, tive a certeza que eram as danças da costa oeste que queria aprofundar e que era aquele o mestre que iria guiar o meu caminho neste percurso.

Como descreves a dança africana?
A dança africana é a mãe de todas as danças, pois ela transforma o gesto do dia-a-dia num passo de dança, ela eterniza em forma de música/ritmo um momento da vida de um jovem. No fundo, ela vive o presente, conta a realidade do quotidiano, valoriza as dificuldades e agradece as conquistas… ela é presente, real e objetiva! Quem a experimenta, sente. Sente pés que massajam a terra, sente um corpo que tem história e raiz, sente braços capazes de abraçar o mais longínquo céu, sente que somos seres comunitários e sociais e que, quando somos muitos, ficamos ainda mais fortes… principalmente quando temos o bater dos tambores e outros instrumentos tradicionais a marcar o compasso connosco.

Já tive uma aula contigo e já assisti a alguns espetáculos da Allatantou dance company. Pelo que vi, e senti, esta dança é energia, é vida, é fogo… e, para ti, o que é?
A dança africana é a minha vida, é a minha inspiração, o meu alimento. Ela é, sim, a vida, o fogo, a energia… mas também é sofrimento, é tradição, é espiritualidade. Não é algo que se possa levar de forma demasiadamente ligeira, pois ela exige coerência, entrega e rigor.

Transmites, de facto, música e dança a quem te rodeia. Qual é o teu segredo?
Acho que o meu segredo é não ter segredos. Não consigo esconder o amor que sinto pelo que faço e partilho aquilo que sei que poderá ser importante para os demais. Quando ensino, gosto de explicar tudo, desde a origem do movimento, à sua técnica e significado. Uma linguagem tão antiga e tão distante é merecedora de todo o respeito e, se fui uma escolhida para a divulgar, sei que tenho que o fazer em total consciência desta responsabilidade. Acho que aquilo que transmito é exatamente aquilo que recebo desta cultura… ou, pelo menos, assim gostaria que fosse!

O que te move?
Move-me o gosto e a responsabilidade de partilhar um conhecimento maioritariamente passado via oral, de geração em geração, através dos tempos. Move-me a riqueza desta herança e move-me o facto de este não ser o meu “berço” real, mas um berço que me recebeu e adotou.

Em relação à Allatantou, quais são os projetos?
Continuar todo este trabalho de divulgação e de formação nas áreas da dança e música, continuar a trabalhar com as crianças e pessoas com deficiências. Continuar com os nossos projetos solidários. E festejar o oitavo aniversário com a mesma magia de todos os outros!

Fátima Amaral Ferreira
A imagem em destaque é da autoria de Raquel Gouveia.
Os vídeos são alusivos aos projetos descritos na entrevista.
A entrevista foi escrita segundo o novo acordo ortográfico.
Quarta, 13 de Novembro, 2013 por Fátima Amaral Ferreira