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A história extraordinária de Marcelino Sambé


Nasceu para cantar movimentos que escuta numa música interior.

Nasceu no Dia Mundial da Dança. Estávamos em 1994. O 29 de Abril encontrava uma Lisboa no ritmo festivo de Capital Europeia da Cultura. Foi a cidade que o viu nascer, filho de mãe portuguesa e pai guineense. O destino estava traçado. Fez 15 anos há uma semana.

Marcelino Sambé é estudante da Escola de Dança do Conservatório Nacional, mas já colecciona prémios em concursos internacionais. Segue as pisadas do amigo e ex-colega Telmo Moreira, dois anos mais velho, que agora estuda na Academia Vaganova (Rússia). Os dois cresceram no bairro do Alto da Loba, em Paço de Arcos. É o começo de uma viagem que o pode levar ao centro do mundo.

O corpo é franzino. Mas a figura ainda adolescente desenha no espaço, a cada gesto, uma melodia musical que é interior e que se expande no ar, cheia de vida. A energia é muita. Marcelino não pára. Está sempre em movimento, sempre a correr de um lado para outro. Dentro e fora das aulas.

O sol de um Verão madrugador entra pelas janelas amplas do estúdio do Conservatório, em pleno Bairro Alto. Ao princípio da tarde, o ritmo é contemporâneo. O acompanhador não toca piano. Os passos e os gestos que a turma repete por insistência da professora iluminam-se com o som de uma flauta ou de instrumentos de percussão. Nesta linguagem, o corpo tende a aproximar-se mais do chão. Os pés descalços sobre o linóleo preto arrastam-se, tocam em compasso sobre as tábuas, para a frente e para trás, no alongar da pose elegante, fazem-se leves ou pesados conforme a intenção. O corpo rodopia e eleva-se no ar, mas também se lança por terra.

Marcelino ri. Marcelino dança. Marcelino faz a festa nas aulas. A professora chama a atenção. Exige empenho. No final, deixa transparecer a doçura na voz que poucos instantes antes parecia dura. É um grupo de adolescentes, a maioria raparigas. O ambiente corresponde à alegria das idades. Mesmo num dia de distracção, é visível que a dança faz parte de Marcelino.

O telemóvel toca a meio da aula. A professora ralha. Ele vai a correr desligar. Corre a sorrir e a olhar para trás. Com um sorriso e o talento natural para a dança... É miúdo, mas já conhece as artimanhas da sedução. Pede desculpas, ainda a correr, e diz: "Pode ser um jornalista..."

Marcelino soma prémios. Primeiro foram os nacionais, no concurso Dançarte, em Faro. Em 2008, na China, venceu na categoria de interpretação do Beijing International Ballet Invitation for Dance Schools. Já este ano, conseguiu a distinção do Youth American Grand Prix Competition, na categoria de júnior, em Nova Iorque.

Quando fala, parece que a história já é longa. E até é. Tem 15 anos, mas aos 4 já gostava de dar nas vistas. Só que então a dança era outra. E nessa viagem às memórias de menino revela um talento para o faz-de-conta mais virado para o teatro. A voz fica mais fina, altera o tom, desengonça o timbre e representa-se a si mesmo.

Começou no Centro Comunitário do Alto da Loba, no grupo Estrelitas Africanas. O jogo de ancas, o fluxo ritmado dos músculos era outro: funaná, hip-hop... Também nas festas do bairro e nos aniversários, faziam-se rodas de dança. Marcelino era dos que saltavam para o centro. Em casa, era a mesma história. Nesta recordação, regressa a essa voz de menino, a querer mostrar à mãe e à irmã, dois anos mais velha: "Venham ver, venham, venham..."

Já nesses tempos, Telmo partilhava a sua vida, a sua paixão pela dança e a amizade. Mas sempre que aparecia no grupo de Marcelino roubava-lhe protagonismo. "Eu era o mais pequenino, era sempre a estrelinha do grupo, mas o Telmo também não era muito grande, e quando ele lá estava a atenção dividia-se." Porém, essas são turras sem importância. A amizade e a cumplicidade foram sempre mais fortes.

Ainda hoje, Marcelino diz: "Sem ele, eu não era nada. Foi ele quem me ensinou os primeiros passos." No passado dia 29 de Abril, no palco do Teatro Camões, na I Gala dos Prémios de Dança, Telmo Moreira dedicou ao amigo o prémio que recebeu na categoria de novos talentos do clássico. Marcelino Sambé fazia anos e também estava nomeado.

Juntos, através das suas memórias, os dois podem fazer essa viagem de volta ao bairro do Alto da Loba, aos primeiros anos de Telmo no Conservatório. No fim do dia, Marcelino ia até casa do amigo e entretinham-se a ver DVD de bailado. O mais velho fazia críticas e o mais novo ia tomando notas: a perna daquela bailarina não está bem... o outro braço está errado... Depois, iam para o quarto e experimentavam poses e passos... em pontas.

Foi uma psicóloga que assistiu a ensaios e espectáculos do grupo de danças africanas que identificou o talento de Marcelino e recomendou-lhe que fosse para o Conservatório. Ao princípio, ele estranhou as novas disciplinas de dança, mas a conselho do amigo mais velho confiou. A paixão tomou conta da sua vida. Agora, diz que mudou um pouco. Já não está tão agarrado à dança. Mas não se nota muito.

Nos dois primeiros anos da escola era diferente. A sua voz muda mais uma vez, torna-se menino. Fala rápido, com olhos e rosto iluminados. Recorda os dias dos ensaios de Telmo, aos sábados. Marcelino dizia: "Ai tens ensaio?! Então vou chamar-te às 8 horas da manhã para irmos para a escola, que eu quero ir ver." Era esse o tamanho do seu entusiasmo.

Conta que, nesses anos, a dança na escola era como a descoberta de um baú cheio de tesouros por explorar num sótão de uma casa antiga.

Entretanto, também já pisou palcos, em experiências profissionais. Em 2007, esteve no São Carlos, como parte do elenco do espectáculo "E Dançaram para Sempre", de Clara Andermatt. Recentemente, actuou no CCB, como bailarino da ópera "Crioulo". Estas são experiências marcantes, que lhe abriram o horizonte da dança. Está mais habituado a que lhe marquem a coreografia do que ter de a memorizar e repetir.

Com Clara, o desafio foi grande. Tinha de descobrir dentro de si o que precisava de fazer. Procurar a razão pela qual dançava. Tinha de pensar e não apenas reproduzir movimentos decorados. Tinha de responder a questões. O que vem a seguir a esse gesto? Estás a mexer o dedo porquê? Hoje, Marcelino diz: "Foi muito bom, porque desenvolvi o meu lado intelectual da dança.

Um bailarino tem de ser tudo, tem de ser bailarino, tem de saber fazer teatro, cantar... Tem de cantar movimentos, no sentido de que o corpo pode fazer as coisas, mas sem música, a música interior, o movimento não é tão especial."

Lucie.Barreira
Fonte: http://expresso.sapo.pt/a-historia-extraordinaria-de-marcelino-sambe=f513487
Terça, 25 de Novembro, 2014 por Lucie.Barreira