back Voltar ao Blog



Eu danço! E tu, danças?


“–Dançar – respondeu o homem-carneiro. Enquanto houver música, deves continuar sempre a dançar. Compreendes o que te estou a dizer? Dançar, continuar sempre a dançar. Não perguntes porquê. Não te ponhas a pensar no sentido das coisas. O significado pouco ou nada importa. Se começares a pensar nisso, os teus pés ficam bloqueados. (...) Por isso, nunca deixes de mover os pés. Continua sempre a dançar, dê lá por onde der. Mesmo que te pareça uma perfeita estupidez, não penses duas vezes. Continua sempre a fazer os passos, um após o outro”.

Enquanto lia esta citação do japonês Haruki Murakami, no seu livro “Dança, Dança, Dança”, veio-me à mente o flashmob que ocorreu, há cerca de dois anos, no metro do Porto. À partida, são duas coisas que nada têm a ver: um excerto de um romance e um grupo de pessoas a fazer, gradual e simultaneamente, os mesmos movimentos. Porém, se pensarmos nestas palavras de Murakami - “… continua sempre a dançar, dê lá por onde der. Mesmo que te pareça uma perfeita estupidez…” – vemos que são duas situações que casam perfeitamente. Ora vejam!

Era um final de tarde aparentemente banal. Hora de ponta no Porto. No metro, na linha que liga a Casa da Música à Senhora da Hora, as mesmas caras de sempre, a mesma vontade de se chegar a casa depois de um longo dia de trabalho. Mas, os dias não têm que ser todos iguais e, felizmente, há pessoas que tentam quebrar a rotina instalada e tornar a sua vida (e a dos outros) um pouco melhor... mais animada pelo menos. E assim foi, naquele dia no metro, com um simples flashmob.

Um grupo de amigos, do qual eu fazia parte, entrou na última carruagem e distribuiu-se, sem grandes alaridos, pelo resto do metro. Até aqui, tudo normal. De repente, começou a soar a “Macarena”, de Los del Rio (quem não conhece esta melodia mítica?). Pouco a pouco, começámos a dançar a coreografia. Os mesmos passos, ao mesmo tempo. Pelo meio, fomos convidando os passageiros a acompanhar o nosso ritmo. Apesar das poucas “conquistas”, a verdade é que conseguimos arrancar vários sorrisos e, também, alguns passos de dança. Quando chegámos ao destino, e depois de termos sido barrados pelos seguranças do metro (por causa da música e não da dança, pois, pelos vistos, é permitido dançar no metro mas não se pode ter um rádio a tocar), embarcámos novamente, em sentido contrário. Quando o “perigo” ficou longe da vista, premimos o botão “play” do rádio e retomámos a nossa Macarena. Novas pessoas, novos semblantes, novos sorrisos. Depois de três viagens, ficou o sentimento de missão cumprida. O nosso flashmob estava finalizado e eu tinha-me divertido como nunca numa viagem de metro.

Por isso, repito: “Continua sempre a dançar, dê lá por onde der… Enquanto houver música, deves continuar sempre a dançar”. Eu danço! E tu, danças?

Fátima Amaral Ferreira
Flashmob: aglomeração instantânea de pessoas, num determinado lugar, para realizarem uma ação inusitada previamente combinada.

Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
Quarta, 04 de Dezembro, 2013 por Fátima Amaral Ferreira