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"Hoje, já te escutaste? Dança isso!"


Cheguei à Casa Brahma, no 1648 da Rua Costa Cabral, Porto, mesmo em cima da hora. Entrei, descalcei-me e, sem estar à espera, vi-me envolvida numa viagem surpreendente. A professora, Mafalda Cancela, convidou-me a escutar o meu corpo para depois o dançar livremente, sem preconceitos. A aventura começou no chão. Deitada, expeli todas as energias da azáfama diária que trazia comigo e entreguei-me àquele momento. Quando a Mafalda disse para nos levantarmos, a minha mente e o meu corpo estavam completamente enraizados naquele lugar. Após um período de exercícios de contacto, de improviso, de movimentos de transe e de inspiração, de dança… encontrei-me. Das pontas dos cabelos aos dedos dos pés, senti cada músculo, cada osso, cada pedaço da minha pele, cada víscera… A aula finalizou com o giro de inspiração sufi. Depois de cinco minutos a “girar”, sentei-me no chão e observei. As colegas foram, pouco a pouco, “desistindo” também. A Mafalda continuou. Girou, girou, girou. Ao som de Bayati Shiraz do músico Ross Daly, a roda criada pela sua saia e a sua entrega apaixonante fizeram-me embarcar numa viagem envolta numa única mensagem: “Dancemos com o que temos, em plena entrega”.



Dizes que o que mais gostas de fazer na vida é dançar. Porquê?
É a dançar que me escuto, que escuto os outros. Em mim, a dança é o veículo mais poderosíssimo de relação com o mundo. Ao dançar questiono, afirmo, abandono, nasço, morro, brinco, regresso, vou. Permito transformar-me através de uma entrega em verdade sem condicionalismos políticos, religiosos, culturais ou sociais. A dança é um movimento na vida. O meu corpo dança a cada dia, em entrega e descoberta constantes. Se é neste registo em que me expresso plenamente, e em que o meu corpo sopra vitalidade e vontade, não faria sentido ser a segunda coisa que mais gosto de fazer na vida…

Quando iniciou este gostinho pela dança?
Desde muito nova que o meu corpo precisa de mover-se para atingir a harmonia. Aos seis anos, iniciei na ginástica acrobática no Futebol Clube do Porto e permaneci durante o primeiro ciclo do ensino básico. Devido à gestão familiar, fui obrigada a deixar a ginástica. Foi, sem dúvida, a primeira perda que senti intensivamente. Sempre cresci entre dança e música, ao conviver diariamente com a comunidade cigana que vivia no mesmo bairro que eu. Tive sempre uma relação muito íntima com os ciganos e, de certa forma, foi nessa relação que a dança despoletou, por estar fortemente presente no dia-a-dia e por ser considerada um meio valioso de expressão e transformação. Lembro-me que dançar com eles era uma espécie de catarse. Entretanto, aos 20 anos, decidi estudar flamenco mas não encontrei nenhuma professora no Porto e, por isso, experimentei dança Oriental. Ao iniciar este género, senti necessidade de participar em formações e workshops relacionados com outras danças, como a dança contemporânea e cigana (Europa de Leste e Rajastão – Índia), atividades de desenvolvimento pessoal e espiritual como a meditação, yoga, artes marciais, entre outros.

Bem, uma vida plena de “movimento”. Dedicas-te a mais algum tipo de dança?
Atualmente, pratico Tog Chod (meditação em movimento), giro de inspiração sufi, estudo flamenco e frequento o curso profissional de movimento oriental e orgânico. Quando regressar à Índia, retomarei a Dança Kalbelya (dança cigana do Rajastão). Vou fazendo formações e investigando temas relacionados com o corpo e que me ajudam a completar este propósito, como os movimentos extáticos e transe, contacto-improvisação, meditação, terapias naturais, entre outros.

Mas, fazes dança a nível profissional ou apenas como hobby?
Danço!

“O corpo diz o que as palavras não podem dizer”. O que é que não podes dizer com palavras?
Queres que dance?

Respostas curtas, mas cheias de significado. Dizes ainda que “a dança, tal como a vida, é uma viagem”. Podes explorar esta afirmação?
Assim como numa viagem o principal propósito é usufruir do caminho, sem pressas, sem apegos, sem egos, reverenciando o real sentido da PRESENÇA e da RELAÇÃO, a viagem da dança e da vida tornar-se-ia mais desafiante se optássemos por estar mais em presença autêntica, ao rompermos com os nossos passados e futuros. Dança e vida são indissociáveis. Hoje, já te escutaste? Dança isso! Um corpo em viagem dança com tudo o que o compõe em plena escuta dos órgãos, ossos, músculos, vísceras, fáscia e de todo o corpo energético. Dancemos com o que temos, em plena entrega. O corpo é um mapa que fala constantemente de nós... Dançar é conhecê-lo a cada dia... É viajar nele e com ele conectar com toda a energia vital.

E qual será o teu destino nesta viagem dançante?
Destino? Sem expectativas... Confio!

Fátima Amaral Ferreira
Esta entrevista foi escrita segundo o novo acordo ortográfico.
As fotografias, cuja protagonista é Mafalda Cancela, são da autoria de Hugo Lima.
Sexta, 29 de Novembro, 2013 por Fátima Amaral Ferreira